25 -June -2019
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Foi há quase duas décadas que a Trofa ficou mais pobre

A “Linha de Guimarães” era uma linha férrea de serviço maioritariamente urbano, que começava na Estação Ferroviária de Porto/Trindade e terminava em Fafe. Em 31 de dezembro de 1883 entrou em funcionamento o primeiro troço – Trofa a Vizela -, em bitola métrica, com a saída de um comboio inaugural formado na Estação da Trofa, embora a linha na sua totalidade só foi inaugurada em 30 de outubro de 1938.

Bitola métrica é a denominação que se dá às ferrovias cuja bitola seja igual a 1.000 mm, mais estreita do que a bitola internacional e só utilizada em algumas linhas secundárias da ferrovia portuguesa. A bitola é a largura determinada pela distância medida entre as faces interiores das cabeças de dois trilhos 

Embora o primeiro troço, entre a Trofa e Vizela, tenha entrado ao serviço em 31 de dezembro de 1883, a linha só chegou a Guimarães a 14 de abril de 1884 e a Fafe em 21 de julho de 1907. O troço até à Trindade foi inaugurado em 30 de outubro de 1938. 

No ano de 1986, o troço entre Guimarães e Fafe foi totalmente encerrado ao tráfego ferroviário, enquanto que o troço do Porto-Trindade à Trofa foi encerrado entre 2001 e 2002 para ser parcialmente substituído pelo metro de superfície. Atualmente a “Linha de Guimarães” apenas tem em funcionamento o troço entre Lousado (V. N. Famalicão) e Guimarães.

No dia 14 de fevereiro de 1998, os comboios antigos da via estreita foram substituídos por modernas automotoras elétricas. Passados poucos anos, em 24 de fevereiro de 2002 foi surripado ao Concelho da Trofa, o meio de transporte habitual de uma parte significativa de trofenses, o comboio da via estreita, com a promessa de ser instalado no seu canal o metro de superfície. Quase duas décadas depois, nem comboio nem metro de superfície. Não foram as populações que pediram para retirar o comboio e substitui-lo pelo Metro! Foi o poder político que assim o desejou!

As obras de conversão do metro de superfície acabaram por só avançar entre a Senhora da Hora e o ISMAI (Maia). Este troço, que ficou concluído em março de 2006 foi integrado na Linha C do metro. 

Em 2010 a empresa Metro do Porto decidiu retirar do seu plano de atividade o prolongamento, de poucos quilómetros, do ISMAI até à Trofa, que esteve projetado para a 1ª fase. Embora tenha sido anunciada oficialmente a abertura do concurso público para a conclusão da obra, numa visita ao Concelho da Trofa, por Ana Paula Vitorino, que era, na época, a secretária de Estado dos Transportes, do governo de José Sócrates e atual ministra do Mar, do governo de António Costa.

Foi há quase duas décadas que a Trofa ficou mais pobre. As populações das freguesias a poente e a sul do Concelho da Trofa (Muro, Alvarelhos, Guidões e Santiago de Bougado) ficaram sem o seu meio de transporte habitual, que utilizavam há muitas dezenas de anos. Estas freguesias fazem parte integrante do Concelho da Trofa, por isso é que a Trofa ficou mais pobre, quando lhes foi surripiado o comboio da via estreita. Uma vergonha nacional.

Crónica escrita em 16/02/2019, para ser publicado no jornal “O Notícias da Trofa”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.

Comunicar com assertividade

A comunicação consiste no processo de transferência de ideias, informações, conhecimentos, sentimentos, emoções ou experiências entre pessoas tornando comum o conhecimento. A comunicação é um elemento fundamental da nossa vivência e é através dela que conseguimos aprender e evoluir.

Comunicação não é aquilo que dizemos, mas aquilo que o outro entende daquilo que foi dito, pois o universo de significações é variável em função de fatores individuais, como as aprendizagens, experiências, personalidades, valores, culturas e vivências. Por isso os conflitos são uma constante no processo comunicacional: nós dizemos uma coisa e o nosso interlocutor entende outra. Comunicação é a arte de ser entendido.

Uma das razões pelas quais as pessoas não escutam competentemente é o diferencial entre a capacidade de falar e de pensar: o falante processa no cérebro cerca de 150 palavras num minuto; o cérebro do ouvinte consegue lidar com cerca de 600 palavras num minuto. Consequentemente, o ouvinte ocupa o “espaço livre” do cérebro com outros pensamentos, assim originando distrações que o desviam do que está a ser proferido. 

Por tudo isto é que é tão importante a forma como se comunica, como a forma que se escuta. Os estilos existentes na comunicação são os seguintes:

- Agressividade: violação dos direitos dos outros, justificada pelo desejo de dominar o outro; só se tem em conta o nosso próprio interesse; não se tem em conta o interesse dos outros; 

- Passividade: este comportamento evidencia ansiedade, reduzindo o impacto da mensagem que está a ser transmitida verbalmente. Não se tem em conta o nosso próprio interesse; só se tem em conta o interesse dos outros;

- Assertividade: este comportamento implica dois tipos de respeito: o respeito por si próprio e o respeito pelos outros. Os comunicadores assertivos fazem valer os seus direitos sem negar os direitos dos outros.

A assertividade na comunicação melhora a capacidade de expressão e a imagem social; fomenta o respeito pelas outras pessoas; evita conflitos e ajuda a resolver confrontos; aumenta a autoconfiança. O estilo de comunicador assertivo gera um ambiente mais apelativo para uma comunicação eficaz, que não envolve necessariamente a concordância entre os interlocutores, mas a transferência, a interpretação e a partilha de significados, isto é a compreensão exata. 

Comunicar com assertividade caracteriza-se por respeitar os sentimentos, as necessidades, os desejos e as opiniões dos outros. Um comunicador assertivo afirma o seu eu e a sua autoestima; demonstra segurança; sabe o que quer e o que pretende alcançar; expressa as suas necessidades ou preferências e opiniões de forma direta, sem ser hostil para o interlocutor. 

Crónica escrita em 02/02/2019, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.

É urgente a regeneração da democracia. Antes que seja tarde!

É cada vez mais evidente o afastamento dos cidadãos da vida política, o descrédito nas instituições, os laços de solidariedade que se enfraquecem, os partidos políticos que se fecham sobre si mesmos e funcionam de forma pouco transparente e muito centralizados na figura do líder, a seleção dos deputados que é quase monopólio das cúpulas partidárias. Tudo isto, e não só, tem fragilizado a democracia, que continua a dar sinais de ter entrado numa profunda agonia. 

A história da democracia é marcada por períodos de avanços e recuos, mas é interessante verificar que o remédio para as maleitas da democracia estão fora do receituário económico e financeiro: o remédio está dentro da Política. Por isso é que é um ato de Cidadania darmos os nossos contributos, pois está nas nossas mãos a regeneração da Democracia! 

O que repugna muitos cidadãos não é a política. A política é altamente nobre e até pode ser exaltante. O que repugna muitos cidadão é apenas certa política e certos políticos. E a democracia o que precisa é de melhores políticos.

Deveria existir um verdadeiro pacto de regime entre os partidos que se queiram regenerar e a sociedade civil, para ser repensado o sistema eleitoral, o funcionamento e o financiamento dos partidos, mas também o exercício do poder e o papel importante da oposição, pois todos os partidos são importantes, para além das práticas normativas e da ética, que tenha como base a ação humana na política. A regeneração da política deve ser uma regeneração mais ética do que técnica.

A democracia não se esgota nos partidos políticos, pois há mais vida democrática para lá dos partidos, que são povoados por elites políticas que se esquecem para o que foram eleitos, principalmente fora dos períodos eleitorais. Só não se esquecem é dos seus familiares, amigos e apaniguados. Muitos deles são uns “figurões” que vão ajudando a aniquilar a democracia. 

Como tem acontecido no passado é sempre o povo a pagar os desmandos de certos políticos e de muitos outros «figurões», que proliferam no mundo da política, como vermes famintos de sede que chafurdam nas poças efémeras do compadrio, da fraude e da corrupção. São os tais políticos, que estão impregnados de ideologia arcaica e são hábeis no “chico espertismo”. Estes “figurões” estão a aniquilar a democracia, com o beneplácito dos seus partidos. É tudo “gente boa”!

Atualmente, o divórcio existente entre os cidadãos e a política é nefasta para a democracia e abre as portas a certos “figurões” e a certas elites políticas.  A democracia não é perfeita, nem pouco mais ou menos, mas nós também não somos, por isso é necessário defender a democracia para a melhorar e nunca para a aniquilar. 

Não se pode esquecer que o principal remédio disponível para regenerar e desenvolver a democracia está dentro da política, embora seja óbvio que o populismo que tem vindo a alastrar um pouco por todo o mundo seja a principal ameaça às democracias. Está nas nossas mãos a regeneração da Democracia. É urgente, antes que seja tarde demais!

Crónica escrita em 19/01/2019, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.

Os desmandos políticos na CGD

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) é um banco público, que teve no passado, e vai continuar a ter no futuro, uma importância indesmentível na saúde económica e financeira do país. A CGD tem sido um verdadeiro pilar financeiro do país, quanto ao crédito concedido à economia, pois continua a ser o principal banco português e o que mais apoia a economia, as empresas e as famílias.

Só que os desmandos políticos na CGD têm sido, nos últimos anos, uma constante originando a que o seu nome tenha andado nas «bocas do mundo», pelos piores motivos. Foram detetados riscos de fraude e erros de gestão, na concessão de crédito e não só, que em devido tempo foi alertada a tutela governamental e o Banco de Portugal (BdP), só que estas entidades oficiais não deram a devida atenção a este alerta, e nada fizeram.

O risco de fraudes e erros de gestão na CGD já tinham sido identificados pelo órgão de fiscalização do banco desde 2007, mas os alertas, inclusive de falhas nos procedimentos internos, que se traduziam num aumento grave da exposição da CGD ao risco, não tiveram a devida atenção e acompanhamento até 2014. Foi um «fartar, vilanagem» durante sete anos consecutivos, pois o Estado ignorou todos esses alertas. 

O alerta do risco de fraudes e erros na gestão da CGD começou na administração liderada por Carlos Santos Ferreira, mas o aviso não mereceu a devida atenção do governo da altura, que era chefiado por José Sócrates, o pior primeiro-ministro que Portugal teve em democracia. Mas também não mereceu a devida atenção por parte do BdP, que era liderado por Vítor Constâncio.

Só nas 25 maiores operações de financiamento concedidos pela CGD, no referido período de sete anos, o banco público perdeu a quantia de 1,3 mil milhões de euros dos 2 mil milhões de euros concedidos. Mas também nos créditos concedidos para financiar a compra de ações, a CGD emprestou 788 milhões de euros e perdeu 520 milhões de euros. 

O banco público também perdeu com financiamentos de projetos público-privados. Só em quatro destes projetos, referentes a autoestradas perdeu 176 milhões de euros, de um total de 256 milhões de euros financiados. A CGD serviu para muitos políticos corruptos praticarem autênticos crimes e desmandos sem conta. São quantias astronómicas que o banco público perdeu (ou seja: todos nós perdemos!), devido a um bom punhado de gestores que passaram pela CGD, em cada mandato, e foram solidários, incompetentes e displicentes na gestão da causa pública. 

Entre 2000 e 2015, um total de 13 ex-governantes foram administradores da CGD. Os mentecaptos que estiveram na ruína do banco público são fáceis de identificar (os conselhos de crédito têm atas) e devem ser responsabilizados e condenados, urgentemente. Os portugueses têm direito a um apuramento destes desmandos políticos praticados na CGD, mas também de quem permitiu e «fechou os olhos» a estes atos criminosos.

Crónica escrita em 02/02/2019, para ser publicado no jornal “O Notícias da Trofa”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.

Tratamento VIP na prisão, por que carga de água?

A Constituição portuguesa consagra o princípio da igualdade, onde está bem claro que “todos os cidadãos são iguais perante a lei. Mas também está bem explicito que “ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito em razão das convicções politicas ou ideológicas, situação económica ou condição social”.

Por tudo isto é que é conveniente saber se a lei trata de modo desigual o que é essencialmente igual e saber se o tratamento desigual está justificado do ponto de vista jurídico-constitucional. Só que, o sistema da justiça, que se quer mostrar justo e igualitário, funciona a dois tempos, um para os ricos e outro para os pobres.

A justiça em Portugal também é discriminatória, em termos de encargos e de custas dos tribunais, que impedem o acesso à justiça de um número cada vez maior de pessoas em situação de pobreza, que também são impedidas de recorrer a recursos a instâncias superiores, pois só os ricos têm possibilidades financeiras a esses recursos. Esta realidade tem sido criticada com veemência, por organismos como a Amnistia Internacional.

A descriminação na justiça também se alarga até às prisões, com reclusos (uma minoria) a terem tratamento especial, a tratamento VIP (da expressão inglesa “Very Important Person” – pessoas muito importantes) e os restantes a terem um tratamento muitas vezes desumano. A grande maioria dos reclusos estão alojados em condições pouco saudáveis, devido à sobrelotação das prisões, que estão a funcionar a 110% da sua capacidade.

A cadeia dos reclusos, a quem o sistema concede "especiais medidas de proteção" vai deixar de ser em Évora e vai mudar-se para Leiria. Os reclusos sujeitos a “especiais medidas de proteção" são membros das forças de segurança e de organismos da função pública, mas também políticos, como foi o caso de José Sócrates e mais recentemente Armando Vara.

A medida proposta pelo Ministério da Justiça prevê a melhoria das instalações e um aumento da sua capacidade, que vai implicar um investimento de 4,3 milhões de euros, para que os designados presos VIP sejam “separados da restante população reclusa”. Mas será que se justifica tal investimento quando se aponta dificuldades financeiras para justificar a contratação de apenas 200 novos guardas prisionais, apesar de se prever a saída de mais de 900 guardas por reformas, nos próximos anos?

A referida medida de melhoria das instalações é justificada oficialmente pela necessidade de separar os reclusos da restante população, por questões de segurança. Alguns destes reclusos designados VIP são «figurões», que proliferaram no mundo da política, como vermes famintos de sede, que chafurdaram nas poças efémeras do compadrio, da fraude e da corrupção, com o beneplácito dos seus partidos. É tudo “gente boa”, que merece tal investimento e proteção!

Crónica escrita em 19/01/2019, para ser publicado no jornal “O Notícias da Trofa”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.