16 -December -2019
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Cai o Carmo e a Trindade quando se diz a verdade

Nesta época e neste mundo em que o ser humano parece ser movido pela ilusão, a mentira tem o seu lugar de eleição na política, mas também nos negócios, nos meios de comunicação, no quotidiano, na rua, em casa, na sociedade, na nossa vida. A mentira, para ser melhor acolhida, por quem a lê ou por quem a ouve, tem de ser travestida de alguma verdade disfarçada e ornamentada de paixão desenfreada, porque a melhor mentira está sempre misturada com alguma verdade. 

Cai o Carmo e a Trindade quando se diz a verdade, por isso é que muitas vezes as palavras verdadeiras são secas e até magoam, porque não são agradáveis de se ler ou ouvir dizer, ao contrário das palavras enganadoras que são apreciadas, porque são muitas vezes adocicadas e até têm musicalidade, para serem melhor interiorizadas e memorizadas. Nos dias de hoje, muitas pessoas não querem ouvir a verdade, porque não querem que as suas perceções erradas e as suas ilusões sejam destruídas.

Nesta sociedade que gosta de encher a boca com a palavra liberdade existem muitas tentativas de asfixiar o livre pensamento, por isso é preciso muita coragem para ter ideias diferentes, ultrapassar paradigmas, propor novos caminhos e dizer aquilo que se pensa. Para se escrever aquilo que a nossa mente cogita, para expressar os nossos pensamentos, as nossas opiniões, é preciso uma dose de loucura, pois o livre pensamento continua a pagar um preço muito elevado.

São já muitos os casos em que o pensamento livre é objeto de retaliação, ameaça, inveja e escárnio, por parte dos detentores da “verdade absoluta”, dos donos da atitude ditatorial do “politicamente correto”. Por mim, como já há muito tempo ensaiei o deleite de ser livre, continuo a expressar os meus pensamentos, a discutir as minhas opiniões e a exaltar a diversidade, a riqueza do ser humano, nas suas dimensões, na sua complexidade, nas suas diferenças, porque entendo que sem consciência crítica e sem verticalidade somos servos.

Há quem viva de farsas que nunca poderão provar e que fale e escreva para agradar, para enganar ou mesmo para ganhar o aplauso dos mais fracos e dos mais ignorantes. É certo que não existem verdades absolutas, mas mesmo que as mentiras alheias possam atacar as minhas verdades relativas, e até possam zombar delas, no final não vão conseguir confundir nem abafar as minhas verdades.

Quando muitos preferem ficar a chafurdar numa atitude expectante eu proclamo as minhas opiniões, sem medos, mas com verdade e verticalidade. Mesmo nos meus pesadelos rastejo incansavelmente tentando encontrar a coluna vertebral e desejando que a verdade seja verdade, por isso abomino a mais voluptuosa das mentiras, pois considero que o mundo seria bem mais agradável sem mentiras e falsidades. 

Eu sei que para criar inimigos não é preciso declarar guerra, basta apenas dizer ou escrever o que se pensa, como eu o faço, livremente livre. No meio de tanta mentira escolho as minhas verdades, os meus valores morais, aquilo que considero como certo para mim, mas tendo respeito pelo outro, pelos seus pensamentos, pelos seus direitos, pela sua personalidade, pela sua individualidade. 

Crónica escrita em 22/06/2019, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.