18 -August -2019
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Algures não sei onde

A arte pode ser expressa de imensas maneiras e é necessária para o homem compreender melhor o mundo em que vive. A arte expressa ideias, sentimentos ou emoções estéticas e estimula a nossa inteligência, mas também contribui para a nossa formação, pois desenvolve a nossa imaginação, o nosso raciocínio e o nosso sentido crítico.

A narrativa oficial do desaparecimento de muitas obras de arte pertencentes a todos nós é hilariante e só não dá para rir à gargalhada, porque se trata de um assunto importante e de uma gravidade tal que não convida a brincadeiras. A ministra da Cultura vai entrar para o anedotário português com o esclarecimento que fez sobre o desaparecimento, pois afirmou que as referidas obras não estão desaparecidas, mas “precisam de uma localização mais exata”.

Há 170 obras de arte contemporânea da denominada “Coleção SEC”, que estavam à guarda governamental, mas a tutela perdeu o seu rastro e não sabe do seu paradeiro. As obras de arte que desapareceram estavam sob a responsabilidade do Ministério da Cultura, que não sabe por onde andam e muito menos em que “mãos” elas estão neste momento. 

Desapareceram 170 obras de arte contemporânea, que fazem parte integrante de uma coleção composta por mais de um milhar de obras de arte. As referidas obras contemporâneas cujo paradeiro é desconhecido pertencem ao Ministério da Cultura e são de autores como Vieira da Silva, Júlio Pomar, Helena Almeida e Abel Manta.  

Se é o próprio governo a perder o paradeiro de um património muito valioso, também é lícito dizer que devem perder o controlo de outro tipo de património menos valioso, mas que é de todos nós, e que provisoriamente lhe entregamos à sua guarda. As obras até podem aparecer amanhã, mas não é por isso que deixam de ser apelidados de desmazelados, desorganizados e irresponsáveis, mas também são uma anedota, pela forma como narraram o que se passou. 

A narrativa oficial sobre o desaparecimento das 170 obras de arte é em si, uma verdadeira obra de arte, pois consegue estimular em nós uma raiva que faz ranger os dentes e também contribui para nascer em nós um vendaval de emoções bem fortes. Mas podemos ficar descansados, pois a ministra da Cultura fez uma declaração deveras esclarecedora: “O que nós sabemos é muito mais do que se sabia há dois anos. E muitas dessas obras não estão desaparecidas. Precisam é de uma localização mais exata”.

A ministra da Cultura afinal já sabe o paradeiro das 170 obras que integravam a “Coleção SEC” (Coleção de Arte Contemporânea do Ministério da Cultura). As referidas obras estão algures não sei onde. E assim, o desaparecimento das obras de arte, se transforma num assunto não assunto!

Crónica escrita em 08/06/2019, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.