Não há que ter medo da liberdade de expressão

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Quanto mais culta e evoluída for uma sociedade, um país, uma nação, menos portas se abrirão para os extremismos patéticos e para as intolerâncias bacocas, que minam a democracia e a liberdade. Em Portugal, um país de brandos costumes, os extremismos têm um significado eleitoral muito residual, excetuando os bloquistas que engordaram com o emagrecimento dos socialistas, só que estão de novo a definhar.

A absurda polémica pública provocada pela participação de um energúmeno extremista, que defendeu Salazar e as suas ideias, contrasta com as afirmações que não provocaram polémica de um dirigente, e atual autarca comunista, que à chegada a Portugal vindo de uma visita oficial à Coreia do Norte afirmou que não sabia se esse país era regido por um sistema não-democrático. Estas afirmações estão em consonância com as declarações de um outro seu camarada, que defendeu o regime ditatorial da Venezuela, num canal televisivo, para o qual também tinha sido convidado.

São graves estas afirmações feitas em televisão, como tinham sido graves as declarações do ideólogo do MRPP e “grande educador da classe operária” Arnaldo Matos feitas numa rede social, que declarou, sem papas na língua: “Operárias e operários: organizemo-nos e lutemos contra a exploração capitalista, com tudo o que tivermos à mão!”. Acompanhando o apelo, Arnaldo Matos partilhou a imagem de duas metralhadoras Ak47.

Estas afirmações são muito graves, só que não originaram qualquer tipo de polémica, talvez por terem sido feitas por dirigentes esquerdistas, que continuam a ser convidados de canais televisivos para comentarem a situação política atual. Se as mesmas firmações (ou semelhantes) tivessem sido feitas, por um qualquer dirigente político de direita caía o “Carmo e a Trindade”, como caiu com as afirmações do extremista, que defendeu Salazar.

A mais forte das tradições das esquerdas políticas é a tradição jacobina, que foi sempre liberticida, pois nunca respeitou a liberdade dos outros. O debate entre diferentes correntes de opinião (concordemos com elas ou não) faz parte de uma sociedade plural, democrática e tolerante, desde que devidamente comprometido com o respeito pela individualidade de cada um, e pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais de um povo.

É verdade que os extremismos andam por aí e será trágico fechar-lhes os olhos, mas não devemos dar-lhe a importância que não têm. E, mesmo que seja incómoda, não há que ter medo da liberdade de expressão, que é um valor com proteção constitucional. 

Pode parecer estranho haver liberdade para os inimigos da liberdade, mas a melhor forma de garantir a liberdade é não hipotecar a nossa liberdade de agir. Muito menos consignar a nossa liberdade de ser!

Crónica escrita em 05/01/2019, para ser publicado no Jornal “O Notícias da Trofa”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.