21 -June -2018
Adicionar aos Favoritos

As palavras que escrevo

Tenho consciência que não existe uma hora certa para começar a escrever, pois não precisa de ser de manhã, à tarde ou à noite, na segunda ou na quinta feira, no início, no meio ou no final da semana. Quando começo a escrever tenho sempre a sensação que esse é o momento certo e lá chega a sofreguidão de encontrar as palavras certas, palavras inventadas, para darem corpo aos meus pensamentos e realizarem os meus sonhos.

Tudo começa exatamente no momento certo, nem antes nem depois. Os pensamentos são apenas sons envoltos em silêncio que naufragam nas palavras que trituram para dentro de mim, num desassossego inquietante. Talvez sejam as letras que me escolhem, que caminham até mim para que eu as possa transformar em escrita ou para que eu possa realizar os meus desencontros, em galopes do vento que passa e leva a minha inspiração.

Quando me sinto por inteiro sobrevoando os meus pensamentos, quando estou pronto para escrever o que me vai na alma, as palavras estão lá, prontas para sair bem lá do fundo da minha corporalidade, para dar amplitude à frase, ao sentimento, às sensações, ao amor e à espiritualidade, mas desejando sempre que a verdade seja verdade. Misturando as palavras que ficam prontas para começar a escrever e mostrá-las ao mundo, neste caso através da revista online BIRD Magazine, que tem tido uma magnífica recetividade junto de um público heterogéneo, cada vez mais exigente e recetivo a novidades. 

Mas antes mastigo as letras que me ardem na alma e as palavras acontecem formando frases que bordam sentimentos e me convidam a viajar no tempo e no espaço, sempre com o desejo que a mensagem passe muito para lá do horizonte que é possível observar. Na inquietude que por vezes me invade deixo deslizar o tempo pelas teclas do computador até que os vocábulos que estão presos na minha alma se soltem num lento esvair escoado, expludam para fora de mim e povoem a minha escrita, com o cheiro e o sabor das palavras que me fazem feliz.

Na sede do vocábulo que me falta, na ausência de inspiração, também tenho de ter a capacidade para dar um salto bem alto e chegar às estrelas, para arrastar algumas até mim conseguindo clarear a minha mente e iluminar o meu coração. Os meus vocábulos mais interessantes são escritos livremente através das cicatrizes da alma, no silêncio de cada palavra, sem medo de apagar e reescrever as minhas ideias, os meus desejos e os meus medos, mas decifrando o silêncio que fizeram as minhas palavras. 

Sou dono do meu silêncio, sem portas fora do tempo, caminhando na paz daquilo que escrevo, sem ser escravo das minhas palavras e sem permitir que me roubem a vontade de sorrir. Ao escrever com as sílabas a dançar dentro das palavras flagelo-me no martírio e na exaltação da escrita deixando-me levar por momentos de felicidade, o que torna a escrita aliciante, excitante e fascinante.

Infinitas e poderosas são as palavras, mas venham elas que eu lhes darei o destino colocando uma pitada de confiança e esperança aromatizando-as com paixão. Escrever serve de catarse à minha existência. Escrever é celebrar a vida!

Crónica escrita em 15/03/2018, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.