21 -June -2018
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Lutas intestinais nos partidos

A primeira finalidade da existência de um partido político é a procura deliberada da conquista e do exercício do poder, para depois de se instalar no poder passar a ser a manutenção do poder a todo o custo. O partido político que não tenha por objetivo principal a conquista, o exercício e a manutenção do poder é considerado um partido anómalo.

Obviamente que a finalidade de um partido político deveria ser a conquista do poder para servir o país e estar ao serviço das pessoas, mas a realidade mostra que não é isso que caracteriza a generalidade dos partidos políticos. Embora se intitulem como grandes defensores dos interesses das populações, os partidos primam pela ausência de valores, coerência, honra, ética e independência, e facilmente se transformam em agência de empregos.

São os dirigentes que escolhem os militantes para votarem em si próprios, de forma a sustentarem o seu poder, por isso é que muitas vezes também têm que providenciar os pagamentos das quotas de muitos militantes. Os dirigentes chegam a inflacionar o número de militantes para garantirem mais poder negocial, junto das estruturas superiores e com isso conseguirem obter mais lugares para os seus apaniguados.   

Os partidos estão organizados numa pirâmide de redes de relações perigosas e nocivas e transformam-se em aparelhos inexpugnáveis, dominados por grupos que se eternizam no poder. Quando o partido chega ao poder, o aparelho partidário passa a viver no paraíso, pois terá muitos cargos para distribuir pela sua clientela.

Por tudo isto é que a ligação entre os membros de um partido político é pautada, em grande medida pelo compadrio, nepotismo, demagogia, populismo e caciquismo. Esta característica dos partidos vem do século XIX, passou sem alterações pela Primeira República e pelo Estado Novo, e não foi banida com a implantação da democracia, em 25 de abril de 1974.

 A ausência de transparência faz com que os partidos, que se consideram os únicos portadores da ação coletiva e se fechem em si próprios, o que origina o afastamento dos cidadãos, que vêm nos partidos o único veículo para o debate democrático. E por consequência também se distanciam ou se afastam da própria participação democrática, pois não querem ser simples joguetes nas mãos dos que detêm o poder.

O “donos” dos partidos, os que têm o poder de distribuir os lugares à mesa do “orçamento”, aqueles que estão bem acima na estrutura partidária, com a sua falta de honestidade intelectual (e não só!) vêm nos militantes de base o seu braço armado para as lutas internas. Por isso é que é normal, principalmente em épocas eleitorais, o aparecimento de listas manipuladas, fichas falsificadas, compra de votos, chapeladas eleitorais e também algumas bofetadas. 

Não é por acaso que a percentagem de cidadãos que militam nos partidos políticos seja só cerca de 1% da população portuguesa, o que é um valor muito baixo, comparado com muitos países civilizados e modernos. As lutas intestinais nos partidos prejudicam o funcionamento da democracia e convidam ao afastamento dos cidadãos dos partidos políticos, que se estão a borrifar para convivência democrática, para a cidadania e para a felicidade dos cidadãos, e nem sequer debatem internamente a temática das ideologias. 

A quantidade muito reduzida de cidadãos que são militantes partidários é penalizadora, desencorajadora e um grande obstáculo à renovação e abertura à sociedade, por parte dos partidos políticos. Que é tão necessária e urgente, para a regeneração e o  fortalecimento do sistema democrático!  

Crónica escrita em 17/02/2018, para ser publicado no Jornal “O Notícias da Trofa”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.