19 -August -2018
Adicionar aos Favoritos

Viver a vida até à despedida

Nos tempos acelerados e conturbados em que vivemos, a falta de tempo é a justificação para a ostracização de muitas pessoas que deram à família, à comunidade, ao país, ao mundo, quase tudo que tinham para dar. Muitas dessas pessoas que estão vulneráveis e quase a deixar o seu legado à vida, só lhes restam a saudade em que as suas lágrimas se afogam numa espécie de rio que nasce da solidão e desagua no mar revolto da tristeza.

Nesta época de consumismo exacerbado e desprovido de afetos, em que as pessoas metem os filhos nos colégios, os pais em lares e depois compram um animal de estimação para lhes fazer companhia e receber ternura é urgente repensar a complexidade da vida nas suas múltiplas dimensões. Tendo sempre como foco principal o ser humano e a família como realidade natural inserida na mutação da sociedade,

As alterações sociais e demográficas têm sido uma constante nas últimas décadas, originando uma vida bem diferente daquela em que viveram os nossos antepassados não muito distantes, que viviam à velocidade do “carro de bois”. Hoje vive-se à velocidade da luz e o tempo escapa-se por entre os dedos originando uma sensação de envelhecimento muito rápido.

A frieza e a marginalização a que são votados os mais idosos fazem com que se sintam sem gosto pela vida, com o passado a se aproximar cada vez mais da sua mente vem naturalmente o saudosismo exagerado, mas querem desesperadamente que o seu necessário desaparecer seja lento e pintado de amor, principalmente pela sua sementeira e pela sementeira da sua sementeira. Quando estão sozinhos perante o silêncio aparecem mágoas tão dolorosas que lhes esventram a alma e os convidam a desistir de sonhar.

Muitas vezes até parece que os idosos estão a viver nas nuvens afastados de tudo e de todos, mas na realidade estão a apreciar o que se passa cá em baixo. Quando as sombras invadem as suas vidas, os idosos passam o tempo a massajar o seu coração dilacerado pela saudade, a limpar as lágrimas que se soltaram sem a sua autorização, a combater a tristeza que conhecem bem as suas entranhas, a adaptar-se a um novo espaço físico e social, a tentar viver intensamente, a viver a vida até à despedida.

Mesmo em agonia e se arrastando na vida, com um longo e pesado penar, o idoso sente que já não tem forças para tentar mudar o que devia ser mudado e fica a ver o seu corpo a definhar, a desvanecer. Mesmo assim quer agarrar com todo o direito, com a pouca energia física que ainda tem e com muita determinação, o momento presente da sua existência, que durará enquanto por cá andar.

A velhice até pode ser uma valente chatice, pois são trocadas as ilusões pelas recordações, mas deve ser bem aproveitada porque é a última oportunidade que os idosos têm para viver a vida. Que bem merecem!             

Crónica escrita em 17/02/2018, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.