22 -July -2018
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Uma novela cigana

As asneiras na pré-campanha eleitoral para as “Autárquicas 2017” têm sido mais que muitas, mas faltava ainda um pouco de enredo novelístico para animar as hostes partidárias, enriquecer a narrativa dos candidatos e espairecer a mente dos eleitores. Perante esta necessidade premente nasceu com toda a vontade de ser um êxito uma novela em Loures, que depressa se alastrou por todo o país.

O candidato do centro-direita à Câmara Municipal de Loures decidiu incluir no seu discurso uma frase que tivesse ressonância no eleitorado e, numa entrevista ao “jornal”, insurgiu-se contra aquelas pessoas que “vivem quase exclusivamente de subsídios do Estado” e que acham “que estão acima das regras do Estado de Direito”, assumindo que tal acontece particularmente com a etnia cigana. 

Esta afirmação polémica foi o suficiente para que toda a esquerda unida à volta de António Costa protagonizasse uma novela cigana e começasse a desancar forte e feio no referido candidato, mas também no partido que mantém o seu apoio. O partido de Cristas decidiu cavalgar na onda do descontentamento e retirou-lhe o seu apoio. E assim se deu início a uma rocambolesca novela cigana, cujo enredo está cheio de contradições.

Os partidos da esquerda unida, incluindo obviamente o grande líder, António Costa, esqueceram-se que também têm telhados de vidro. Costa até teve o desplante de afirmar: “as posições racistas do referido candidato desonram quem não lhe retirou a confiança política”. É uma afirmação típica de quem tem uma memória muito curta!

Num passado não muito distante, o então presidente da Câmara Municipal de Loures fez declarações muito idênticas. Quando foi questionado sobre uma eventual manifestação da comunidade cigana no concelho, o então autarca socialista afirmou que “ficaria muito satisfeito se a manifestação fosse com o objetivo de pagar as rendas em atraso, as dívidas avultadas de água ou para se inscreverem no centro de emprego”.

Também recentemente, o presidente da junta de Freguesia de Cabeça Gorda, no concelho de Beja, eleito pela CDU, não autorizou o enterro e velório na casa mortuária de um membro da comunidade cigana da região, alegando que este “não era natural nem residia na localidade”. Só que o referido cigano era pastor de uma Igreja Evangélica local e fazia parte da comunidade cigana residente na freguesia. Este autarca comunista além de ter praticado uma grosseira inconstitucionalidade ao impedir a deposição do corpo, também praticou um evidente e vergonhoso ato de exclusão social.

Para tentar defender o indefensável é óbvio que o grande educador de massas, o militante do politicamente correto, a esquerda envergonhada, a esquerda moralista e a esquerda caviar ficaram assanhadas com a situação que eles próprios criaram, mas de pronto começaram a vociferar e a despejar a expressão popular: “uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa”. 

Com a raiva a crescer nas pontas dos dedos, até apetece citar um treinador de futebol, que é dado a elucubrações epistemológicas: “um vintém é um vintém e um cretino é um cretino”. 

José Maria Moreira da Silva

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www.moreiradasilva.pt

Crónica escrita em 20/07/2017 tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.