22 -July -2018
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E quase tudo foi dantesco

Depois de ter respeitado o período de luto pelas vitímas do incêndio trágico que deflagrou na região centro e após um silêncio reflexivo decidi fazer algumas interrogações sobre essa tragédia nacional. É uma análise com o máximo de respeito para com as vitímas, a solidariedade devida para com as suas famílias, a necessária gratidão pelo trabalho e bravura levados até aos limites pelas populações afetadas, mas também por todos quantos lutaram com heroísmo, principalmente os bombeiros. Um abraço solidário para todos!

Como não sou perito em fogos rurais, para escrever esta crónica sobre a morte que saiu à rua e foi à zona do pinhal ceifar a vida a dezenas de pessoas tive de me socorrer a relatos de familiares das vitimas, a afirmações de habitantes das zonas afetadas e a desclarações de especialistas, assim como senti necessidade de ver as imagens horrorosas em tons de cinza. Também vi muitas lágrimas de crocodilo impregnadas de hipocrisia, ouvi muitas patacoadas, li muitos nacos de prosa insensível e assisti a muitas piruetas retóricas. 

Foram pedaços de tristeza que juntei para chegar a estas conclusões. O incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria e se alastrou para outros concelhos dos distritos de Coimbra, Santarém e Castelo Branco é considerado o 11º mais mortal do mundo, desde o início do século XX, e a 7ª maior tragédia, em Portugal, no último meio século. 

As autoridades nacionais identificaram dezenas de pessoas que morreram queimadas pelo fogo assassino e por inalação de fumo, muitas dezenas de pessoas que ficaram feridas, centenas de pessoas desalojadas, largos milhares de animais mortos e dezenas de milhares de hectares de pinhal literalmente reduzido a cinzas. Infelizmente este tipo de flagelo tem-se vindo a repetir ano após ano, assim como se repetem as declarações dos governantes, que sem pudor asseguram que no verão seguinte tudo será diferente, para melhor. 

Desde a primeira hora que os portugueses mostraram a sua grandeza, ao serem solidários com as vítimas do incêndio. Os governantes é que não são da sua têmpera nem da sua dimensão e não souberam aproveitar tamanho gesto solidário. Quanto ao resto quase tudo foi dantesco! Até o desespero foi dantesco, como foi dantesco o número de afirmações políticas disparatadas, incongruentes e sem nexo, que exigem algumas interrogações.

O Presidente da República, no seu gás natural, mal chegou ao local disse que "o que se fez foi o máximo que se podia fazer e nada mais se podia ter feito". Passados dois dias corrigiu o discurso e reconheceu que “um novo posto de comando trouxe organização e meios muito diferentes daqueles que existiam”. Foi um caos! Tudo correu mal, sobretudo no sistema de comunicações e na coordenação. Afinal podia-se ter feito mais e melhor. Verdade? 

O Primeiro-Ministro afirmou que a origem do incêndio foram as trovoadas secas, só que os habitantes de Escalos Fundeiros, em Pedrógão Grande, onde começou o terrível incêndio disseram que as trovoadas só foram ouvidas horas depois de o fogo ter iniciado. O próprio Instituto Português do Mar e da Atmosfera não tem qualquer registo de trovoada na região de Pedrógão Grande, no fatídico dia do incêndio. Quando é feito um pedido de desculpa?

O Ministro da Agricultura disse que estava de consciência tranquila, pois já produziu este ano muita legislação sobre fogos. Só que se esqueceu de dizer que não há mapas de risco atualizados e que o plano contra incêndios, que deve ser avaliado de dois em dois anos, já não é avaliado há quatro anos. É uma incongruência para tapar o sol com a peneira?

A Ministra da Administração Interna e o seu Secretário de Estado apelaram, no segundo dia da catástrofe, ao fim das doações de alimentos alegando motivos de logística, mas esqueceram-se que há sempre o dia seguinte. Porque é que não pediram ajuda ao Banco Alimentar Contra a Fome ou às Forças Armadas que são especialistas em logística? E também porque é que não assumiram o facto de não se ter encerrado em devido tempo a A13, o IC8 e a EN236, as estradas onde muitas pessoas perderam a vida? 

Perante a maior tragédia que aconteceu em Portugal devido aos incêndios de Verão, estes responsáveis da Administração Interna devem assumir as suas responsabilidades políticas. No passado, por muito menos, outros governantes assim o fizeram: demitiram-se!          

Crónica escrita em 24/06/2017, para ser publicado na “BIRD Magazine”, tendo em atenção as regras do novo acordo ortográfico.